É quando estou alheio que percebo que há uma tênue linha a separar a vida que serei e a e vida que sou hoje. Por ser inteligente e perspicaz, cheguei até longe demais, mas sem ainda ter certeza de que tudo está na mais perfeita ordem. Neste exato momento, estou num lugar onde pretendo passar o resto da minha vida, fazendo algo que pretendia fazer pelo resto da minha vida; aí noto o quão distante estou da vida que eu seria...
Há um homem com um laptop em sua frente, comendo sanduíches de "fast-food"; eu o observo e vejo a vida que serei. Por um instante sinto náuseas por pensar que a felicidade, tal qual almejei, está comigo agora e não projetada na imagem do homem sério, de terno, que acabou de engolir metade da voracidade representada por um sanduíche. Ele limpa a boca com o guardanapo e retoma os olhos ao computador, sem perceber que às suas costas jaz, intacto, todo o Rio de Janeiro em supra beleza de um pôr-de-sol. Não! Tenho certeza de que a felicidade tal qual almejei está comigo agora...mas a vida que levo mais parece convergir para o homem que observo, silencioso, na casta brincadeira que faço de ser ele mesmo. Convalesço do momento. Ele fecha o laptop. Parece cansado; parece infeliz. Não! Não parece cansado! Não parece infeliz! Maldita idiossincrasia! Maldito marcelomorfismo! Sou eu quem não se sente bem por estar vendo a vida que eu seria, no momento da vida que sou, sendo completamente destruída pela vida que serei...